terça-feira, 27 de março de 2012

TJ-RJ afasta juiz que atuou em Itaguaí

O juiz Rafael de Oliveira Fonseca, titular da vara única de Mangaratiba, investigado em 2008 pela CPI dos Grampos, será investigado em um processo administrativo disciplinar por sua conduta na permissão de um grande número de escutas para investigações das Polícia Federal e da Secretaria de Segurança Pública (Seseg) do Rio de Janeiro. Ao todo, o magistrado autorizou 2147 escutas apenas no ano de 2007, o que representaria uma investigação para cada 48 habitantes do município. Além do número excessivo de grampos, o magistrado também será investigado por uma suposta ligação com grupos paramilitares que atuam em Itaguaí, na Baixada Fluminense, onde atua.
O juiz Rafael será alvo de um processo administrativo disciplinar. Além de ser acusado de vender alvarás para milicianos e repassar armas apreendidas com numeração raspada para servidores e policiais, o magistrado também vai ter que responder por outras duas acusações: autorização de escutas clandestinas e a destruição de provas.
A decisão do Órgão Especial, colegiado que reúne os 25 desembargadores mais antigos do TJ-RJ, foi unânime. "A atuação do juiz Rafael de Oliveira Fonseca leva à irredável conclusão de que o afastamento de sua função se impõe até o final do processo administrativo", afirmou o corregedor do TJ-RJ e relator do caso, desembargador Antonio José Azevedo Pinto.
Os magistrados também determinaram o envio de peças do processo disciplinar para o Ministério Público do Estado do Rio, para que sejam apurados eventuais ilícitos criminais. Um novo procedimento será instaurado na Corregedoria do TJ-RJ para investigar a participação do servidor Rinaldo Conti de Almeida nos desvios dos quais Fonseca é acusado.
Apesar da unanimidade, a sessão que decidiu o afastamento do juiz foi tensa e com discussões acaloradas entre os magistrados.
A desembargadora Nilza Bittar, que chegou a bater boca com o presidente do TJ-RJ, desembargador Manoel Alberto Rebelo dos Santos, disse que estava chocada com o caso. "A certeza da impunidade do juiz surpreende ainda mais que a certeza da impunidade de um bandido", disse a magistrada.
Na avaliação do desembargador Bernardo Garcez, há indícios claros da prática dos crimes de escuta clandestina, destruição de provas, concussão (corrupção cometida por funcionário público) e peculato.
Fonseca estava presente à sessão, mas nem ele e nem seu advogado Onurb Couto Bruno quiseram se manifestar sobre as acusações.
De acordo com o deputado federal Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), que presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito, o juiz era usado por autoridades da Segurança Pública como uma "barriga de aluguel", gíria policial para um magistrado que dá sentenças sobre áreas que não pertencem a sua jurisdição:
"O poder absoluto gera problemas, as pessoas precisam ser fiscalizadas. Houve uso indevido nas autorizações para grampos. Não encontramos em nenhum outro lugar algo nesse patamar. Na verdade, o que ocorreu é um conluio, e a Justiça não pode funcionar por conluios, nem para o bem, nem para o mal", afirma Itagiba.
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