RIO - O sobrenome é Silva. O nome, ela prefere omitir. Desde de
dezembro passado, é uma das 2.500 pessoas invisíveis ao poder público
que vivem num dos três acampamentos de barracos de madeira, lona e
papelão no Conjunto Habitacional Nova Sepetiba. Num espaço de cinco
metros quadrados, ela cria seus quatro filhos. Antes de chegar ali,
fugiu do tráfico do conjunto Dom Jaime Câmara, em Padre Miguel, onde seu
marido, envolvido com o crime, foi assassinado, em 2006. Passou
também pelo Conjunto Campinho, em Campo Grande, dominado pela milícia,
onde não conseguiu pagar os R$ 250 de aluguel. Até virar agregada na
casa de uma irmã em Nova Sepetiba e, em seguida, se juntar aos sem-teto
do acampamento.
- Agora, a cada dia de chuva, vejo meu barraco quase desabar - diz ela.
Assim, Silva, atualmente com 28 anos, engrossa a tendência de
favelização do Nova Sepetiba - maior conjunto construído em quase duas
décadas no Rio, com 4.644 unidades habitacionais erguidas de 2000 a
2004. Tipo de pressão semelhante à que sofreram vários outros conjuntos
no Rio, como o Cidade Alta, em Cordovil, hoje cercado por cinco favelas
formadas, sobretudo, por filhos e parentes de moradores do conjunto,
como mostrou o primeiro dia da série "Vidas em Blocos", sobre os cem
anos dos conjuntos habitacionais do Rio.
Em Nova Sepetiba, conta o líder comunitário Marcelo Santos Dias,
assim como Silva, quase todos os acampados já viveram como agregados na
casa de familiares do conjunto, que viveu uma explosão demográfica nos
últimos anos. Fartos do aperto na casa de parentes, ano passado eles se
reuniram para ocupar outro conjunto, o Nova Sepetiba II, com 628
unidades em Pedra de Guaratiba, iniciado no governo Anthony Garotinho,
mas com obras paradas desde 2002, alvo de ações judiciais e de órgãos
ambientais, por estar numa Área de Proteção Ambiental, onde foram
investidos R$ 55 milhões.
- Foram dois dias no paraíso, debaixo de um teto. Mas fomos
expulsos. Nossa alternativa foi fazer novos acampamentos no conjunto -
relata Angela Zibell, de 32 anos, mãe de sete filhos. - No acampamento
falta comida, dependemos de doações. Fiquei desempregada, meu marido me
deixou e não consigo trabalhar, porque nem creche para deixar meus
filhos tem.
Assim como Angela, mães solteiras são maioria dos adultos nos
acampamentos. E os filhos delas, além de não terem vaga em creches,
tampouco conseguem atendimento no Posto de Saúde da Família do Nova
Sepetiba, por não serem considerados moradores formais do bairro. Nos
becos dos acampamentos, sem saneamento e que alagam a qualquer chuva,
casos de dengue e conjuntivite são tão frequentes que já se fala em
surto.
Moradores das casas do conjunto até tentam ajudar. Rosemar dos
Santos, de 42 anos, recolhe doações para os vizinhos acampados, que
usam os banheiros das casas.
- Já passei por isso. Há dez anos, vivia num acampamento, antes de vir para cá - diz Rosemar.
O conjunto a que ela chegou há uma década é um lugar em ebulição.
Não só por causa dos acampamentos, mas também pelas transformações por
que passam as próprias casas, de quarto, sala, cozinha e banheiro. Nesse
tempo, a primeira providência da grande maioria dos moradores foi a
construção de muros. E puxadinhos já dão forma a casas com até dois
andares.
O pintor e desenhista Edmilson Sagat, de 33 anos, mora numa das
casas originais de Nova Sepetiba, que já ganhou um muro, uma piscina e
uma churrasqueira. Novas modificações, no entanto, estão nos planos
dele, que há 13 anos foi para Nova Sepetiba trabalhar na construção das
casas.
Porém, constata Sagat, as moradias chegaram antes da
infraestrutura. Dos três espaços reservados a escolas, dois estão
vazios. O asfaltamento das ruas só veio seis anos atrás. As obras para
concluir as praças, previstas no projeto original, começaram só
recentemente.
Vila olímpica virou um brejo
Dessa forma,
ao longo dos anos, a principal área de lazer de Nova Sepetiba, que
deveria ser uma espécie de Vila Olímpica, não passou de um matagal com
caminhos de cimento, que viram brejo a cada chuva. Apesar dos
problemas, Sagat diz ter mudado de vida:
- Eu era do tráfico. Hoje, sou pai de família. O ambiente
socializa as pessoas. Morava no Jacarezinho, de frente para um valão.
Acordava e pulava um morto na minha porta. Este lugar me ajudou a sair
do crime.
Valquíria de Andrade, de 35 anos, também diz preferir o conjunto à
favela. Antes, ela vivia de aluguel na Rocinha, num cômodo com
banheiro. Agora, mora num quarto-e-sala.
- Há nove anos estou em Nova Sepetiba, e há nove não consigo
trabalho. Ninguém paga passagem para cá - diz Valquíria, que hoje mora a
70km do Centro, e era empregada doméstica na Zona Sul.
0 comentários:
Sua opinião sobre o assunto e seus comentários são importantes para o aperfeiçoamento de nosso trabalho e a perfeita visão do que acontece em nossa Zona Oeste.