segunda-feira, 16 de maio de 2011

Acampamento improvisado cria favela ao lado do conjunto Nova Sepetiba


RIO - O sobrenome é Silva. O nome, ela prefere omitir. Desde de dezembro passado, é uma das 2.500 pessoas invisíveis ao poder público que vivem num dos três acampamentos de barracos de madeira, lona e papelão no Conjunto Habitacional Nova Sepetiba. Num espaço de cinco metros quadrados, ela cria seus quatro filhos. Antes de chegar ali, fugiu do tráfico do conjunto Dom Jaime Câmara, em Padre Miguel, onde seu marido, envolvido com o crime, foi assassinado, em 2006. Passou também pelo Conjunto Campinho, em Campo Grande, dominado pela milícia, onde não conseguiu pagar os R$ 250 de aluguel. Até virar agregada na casa de uma irmã em Nova Sepetiba e, em seguida, se juntar aos sem-teto do acampamento.
- Agora, a cada dia de chuva, vejo meu barraco quase desabar - diz ela.
Assim, Silva, atualmente com 28 anos, engrossa a tendência de favelização do Nova Sepetiba - maior conjunto construído em quase duas décadas no Rio, com 4.644 unidades habitacionais erguidas de 2000 a 2004. Tipo de pressão semelhante à que sofreram vários outros conjuntos no Rio, como o Cidade Alta, em Cordovil, hoje cercado por cinco favelas formadas, sobretudo, por filhos e parentes de moradores do conjunto, como mostrou o primeiro dia da série "Vidas em Blocos", sobre os cem anos dos conjuntos habitacionais do Rio.
Em Nova Sepetiba, conta o líder comunitário Marcelo Santos Dias, assim como Silva, quase todos os acampados já viveram como agregados na casa de familiares do conjunto, que viveu uma explosão demográfica nos últimos anos. Fartos do aperto na casa de parentes, ano passado eles se reuniram para ocupar outro conjunto, o Nova Sepetiba II, com 628 unidades em Pedra de Guaratiba, iniciado no governo Anthony Garotinho, mas com obras paradas desde 2002, alvo de ações judiciais e de órgãos ambientais, por estar numa Área de Proteção Ambiental, onde foram investidos R$ 55 milhões.


- Foram dois dias no paraíso, debaixo de um teto. Mas fomos expulsos. Nossa alternativa foi fazer novos acampamentos no conjunto - relata Angela Zibell, de 32 anos, mãe de sete filhos. - No acampamento falta comida, dependemos de doações. Fiquei desempregada, meu marido me deixou e não consigo trabalhar, porque nem creche para deixar meus filhos tem.
Assim como Angela, mães solteiras são maioria dos adultos nos acampamentos. E os filhos delas, além de não terem vaga em creches, tampouco conseguem atendimento no Posto de Saúde da Família do Nova Sepetiba, por não serem considerados moradores formais do bairro. Nos becos dos acampamentos, sem saneamento e que alagam a qualquer chuva, casos de dengue e conjuntivite são tão frequentes que já se fala em surto.
Moradores das casas do conjunto até tentam ajudar. Rosemar dos Santos, de 42 anos, recolhe doações para os vizinhos acampados, que usam os banheiros das casas.
- Já passei por isso. Há dez anos, vivia num acampamento, antes de vir para cá - diz Rosemar.
O conjunto a que ela chegou há uma década é um lugar em ebulição. Não só por causa dos acampamentos, mas também pelas transformações por que passam as próprias casas, de quarto, sala, cozinha e banheiro. Nesse tempo, a primeira providência da grande maioria dos moradores foi a construção de muros. E puxadinhos já dão forma a casas com até dois andares.
O pintor e desenhista Edmilson Sagat, de 33 anos, mora numa das casas originais de Nova Sepetiba, que já ganhou um muro, uma piscina e uma churrasqueira. Novas modificações, no entanto, estão nos planos dele, que há 13 anos foi para Nova Sepetiba trabalhar na construção das casas.
Porém, constata Sagat, as moradias chegaram antes da infraestrutura. Dos três espaços reservados a escolas, dois estão vazios. O asfaltamento das ruas só veio seis anos atrás. As obras para concluir as praças, previstas no projeto original, começaram só recentemente.
Vila olímpica virou um brejo
Dessa forma, ao longo dos anos, a principal área de lazer de Nova Sepetiba, que deveria ser uma espécie de Vila Olímpica, não passou de um matagal com caminhos de cimento, que viram brejo a cada chuva. Apesar dos problemas, Sagat diz ter mudado de vida:
- Eu era do tráfico. Hoje, sou pai de família. O ambiente socializa as pessoas. Morava no Jacarezinho, de frente para um valão. Acordava e pulava um morto na minha porta. Este lugar me ajudou a sair do crime.
Valquíria de Andrade, de 35 anos, também diz preferir o conjunto à favela. Antes, ela vivia de aluguel na Rocinha, num cômodo com banheiro. Agora, mora num quarto-e-sala.
- Há nove anos estou em Nova Sepetiba, e há nove não consigo trabalho. Ninguém paga passagem para cá - diz Valquíria, que hoje mora a 70km do Centro, e era empregada doméstica na Zona Sul.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/05/14/acampamento-improvisado-cria-favela-ao-lado-do-conjunto-nova-sepetiba-924465955.asp#ixzz1MX07FiLg
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